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Lideranças Indígenas e Parlamentares Exigem Mais Vozes Indígenas na Política e Proteção de Terras Contra Mineração e Marco Temporal

abril 9, 2026

Seminário na Câmara reforça a urgência da participação indígena em espaços de decisão e na proteção de territórios ancestrais.

O 4º Seminário sobre Direitos dos Povos Indígenas, realizado na Câmara dos Deputados, foi palco de intensos debates sobre a necessidade de ampliar a representatividade dos povos originários nos espaços de poder. O evento, que coincide com a realização do 22º Acampamento Terra Livre em Brasília, destacou a luta por direitos territoriais e o enfrentamento a ameaças como a mineração e o marco temporal.

Lideranças indígenas e parlamentares uniram suas vozes para defender o fortalecimento da chamada “bancada do cocar”, ressaltando que o ano eleitoral representa uma oportunidade ímpar para consolidar a presença indígena nas instituições e nos poderes da República. A ex-ministra e deputada Sônia Guajajara (Psol-SP) enfatizou a importância de disputar o projeto de vida e o direito de existir dos povos indígenas, garantindo que suas demandas sejam ouvidas e transformadas em políticas públicas.

A deputada Juliana Cardoso (PT-SP), presidente da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais, corroborou a necessidade de fortalecer essa representatividade. Conforme informações divulgadas, o seminário evidenciou a correlação direta entre a presença política indígena e o combate à violência, além da garantia da segurança jurídica das terras. O avanço dessas pautas é crucial para a preservação cultural e ambiental dos povos originários.

Ameaças à Demarcação e Exploração Mineral em Terras Indígenas

Um dos pontos centrais do debate foi a resistência a projetos como o do marco temporal, que restringe o reconhecimento de terras indígenas àquelas ocupadas até 5 de outubro de 1988. Parlamentares e lideranças indígenas alertam que essa tese busca legitimar invasões e facilitar a exploração de recursos naturais, como a mineração, em áreas que deveriam ser protegidas. A deputada Juliana Cardoso criticou veementemente essa abordagem, afirmando que ela visa favorecer “interesses privados” e o “lucro acima de tudo e de todos”.

Alessandra Munduruku, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), trouxe relatos alarmantes sobre os impactos da mineração nas aldeias. Ela descreveu a contaminação de rios, o aumento da prostituição e a presença de grupos criminosos como consequências diretas dessa atividade predatória. Munduruku também denunciou a violência que se estende aos corredores do Senado, onde um grupo de trabalho discute a exploração mineral em terras indígenas, e conclamou os deputados a acompanharem de perto essa discussão para evitar a invasão de seus territórios.

A deputada Célia Xakriabá (Psol-MG) reforçou a crítica ao modelo econômico vigente, pontuando que a exploração de minerais estratégicos representa uma “safra única” que, ao final, “detona todo o território”, comprometendo a sustentabilidade e a integridade das terras indígenas.

Territórios Indígenas: Essenciais para o Clima e a Preservação Ambiental

O lema “Sem território, não há clima” resumiu a importância da preservação territorial indígena na luta contra as mudanças climáticas. Francisco Itamar Melgueiro, coordenador de Políticas Ambientais da Funai, defendeu as práticas tradicionais dos povos indígenas como uma resposta fundamental para a estabilidade climática, atuando como “sumidouros de carbono”. A preservação das florestas e dos ecossistemas sob a guarda indígena é vista como crucial para a saúde do planeta.

Sônia Guajajara destacou que o reconhecimento dos direitos territoriais é um passo indispensável para mitigar a emergência climática global. Além disso, é um pilar para garantir uma “transição energética justa”, que não penalize as populações mais vulneráveis e que respeite os saberes ancestrais na gestão dos recursos naturais. A proteção dos territórios indígenas é, portanto, uma estratégia vital para o futuro ambiental.

Histórico de Luta e a Importância da Constituição de 1988

Ceiça Pitaguary, secretária nacional de Gestão Ambiental e Territorial Indígena do Ministério dos Povos Indígenas, relembrou a trajetória de organização do movimento indígena no Brasil. Iniciada na década de 1970, em oposição aos projetos do regime militar, a luta culminou no fim do regime de tutela, que tratava os indígenas como incapazes. A resistência histórica foi fundamental para a conquista dos direitos garantidos na Constituição de 1988.

Sônia Guajajara fez questão de ressaltar o legado das lideranças que antecederam a geração atual. Ela mencionou que muitos desses pioneiros, “sem saber ler ou escrever”, acamparam em Brasília e dialogaram com os constituintes para assegurar os artigos 231 e 232 da Constituição Federal, que formam a base dos direitos indígenas hoje. “A responsabilidade agora é nossa, de não deixar perder esses direitos”, concluiu a deputada, enfatizando a importância de defender e fortalecer as conquistas históricas.