
Consumidores arcam com mais de R$ 7 bilhões anualmente devido a furtos e fraudes de energia elétrica no Brasil.
O setor elétrico brasileiro enfrenta um desafio bilionário com as chamadas “perdas não técnicas”, que incluem furtos de energia, como ligações clandestinas e desvios diretos da rede, popularmente conhecidos como “gatos”, além de fraudes em medidores. Esses atos ilícitos geram um impacto financeiro significativo que, em última instância, é repassado para os consumidores nas tarifas de energia.
Dados recentes apresentados na Câmara dos Deputados revelam que, somente nos anos de 2024 e 2025, os consumidores brasileiros foram responsáveis por cobrir mais de R$ 7 bilhões em custos decorrentes dessas perdas. O montante total de prejuízos reconhecido pelas distribuidoras é ainda maior, mas uma parcela substancial é absorvida pelos clientes finais, configurando um verdadeiro “imposto invisível”.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) apresentaram números alarmantes sobre a dimensão do problema. Conforme informações divulgadas, o custo total das perdas não técnicas em 2024 atingiu R$ 10,3 bilhões, com R$ 7,1 bilhões sendo repassados aos consumidores. A Abradee estima que em 2025, R$ 7,8 bilhões de um prejuízo total de R$ 11,3 bilhões foram transferidos para as tarifas. Essa situação tem levado a um ciclo vicioso, apelidado pelo setor de “espiral da morte”, onde o aumento das perdas eleva as tarifas, incentivando mais fugas e inadimplência.
Furtos de Energia: Um Fardo Pesado para o Consumidor
As perdas não técnicas representam uma parcela considerável da energia injetada no sistema. Em 2024, a Aneel registrou perdas de 40 TWh, o equivalente a 6,6% de toda a energia produzida no país. A complexidade geográfica de algumas áreas, o crescimento desordenado das redes de distribuição e restrições operacionais em locais com altos índices de furtos e inadimplência são apontados como fatores que dificultam o combate a essas práticas.
A gerente de regulação econômica da Aneel, Flávia Pederneiras, explicou que a agência realiza um benchmarking entre as 51 distribuidoras para definir quanto do prejuízo com perdas técnicas será repassado às tarifas, levando em conta a complexidade de cada área. No entanto, a concentração do problema é notória, com as regiões Norte e Sudeste liderando os índices de perdas não técnicas.
Amazonas e Rio de Janeiro Lideram Prejuízos com Furtos de Energia
Dentre as concessionárias, uma do Amazonas e outra do Rio de Janeiro se destacam negativamente, com seus clientes arcando com os maiores prejuízos. Segundo Flávia Pederneiras, da Aneel, a tarifa da Amazonas Energia poderia ser cerca de 13% menor sem os furtos, significando que R$ 1 a cada R$ 8 pagos pelo consumidor amazonense vai para cobrir esses desvios. No caso da Light, no Rio de Janeiro, a tarifa residencial poderia ser 9,1% mais barata.
O furto de cabos elétricos também é uma preocupação crescente. Em 2025, foram registradas 25 mil ocorrências, gerando um prejuízo de R$ 97 milhões e aumentando o risco de acidentes e interrupções no fornecimento. Espera-se que a Lei 15.181/25, que endureceu as penas para esse tipo de crime, comece a surtir efeito nas estatísticas de 2026.
TCU Aponta “Imposto Invisível” e Busca por Soluções
O Tribunal de Contas da União (TCU) fiscalizou esses custos em 2023 e 2024, identificando o que o chefe de auditoria especializada em energia elétrica do TCU, André Carneiro, chamou de “imposto invisível” pago pelos consumidores. Ele ressaltou que as perdas não técnicas reduzem o faturamento das distribuidoras, diminuem a base de consumidores pagantes e, consequentemente, elevam as tarifas, alimentando um ciclo prejudicial.
A presidente do Conselho Nacional de Consumidores de Energia Elétrica (Conacen), Rosimeire da Costa, pediu providências urgentes, destacando que consumidores de baixa e média renda são os mais afetados por essa situação e que a metodologia de repasse precisa ser revista para aliviar a carga sobre esses cidadãos.
Propostas para Combater os Furtos e Fraudes de Energia
Diante desse cenário, o deputado Julio Lopes (PP-RJ), coordenador da comissão que discute o tema, busca ativamente soluções. Entre as sugestões apresentadas em audiência pública estão a redefinição das metas de perdas em concessões com alta restrição operativa e a implementação de “tarifas inteligentes”, que poderiam oferecer valores diferenciados de acordo com a localização do imóvel, buscando mitigar o impacto dos furtos e fraudes nas tarifas de energia.