Skip to content

Emendas de Segurança Pública: Estudo Revela Desconexão Alarmante Entre Recursos e Violência Municipal

agosto 18, 2026

Estudo da Câmara dos Deputados expõe falhas na destinação de emendas para segurança pública

Um estudo recente realizado pela Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados, a pedido da Liderança do Psol, trouxe à tona uma preocupação significativa sobre a alocação de recursos públicos. A análise indica que as emendas parlamentares voltadas para a segurança pública não estão chegando aos municípios que mais necessitam, ou seja, aqueles que registram altos índices de violência.

Os resultados são contundentes: quase 100% dos municípios com taxas de violência acima da média estadual não receberam verbas de emendas parlamentares para segurança entre 2022 e 2026. Essa desconexão levanta sérias questões sobre a eficácia das políticas públicas e a distribuição equitativa dos recursos federais.

Os dados, compilados a partir de informações do IBGE, do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública e do Sistema Integrado de Administração Financeira, foram utilizados para criar indicadores específicos. Conforme informação divulgada pela Agência Câmara, o estudo busca entender a relação entre o volume de recursos e o impacto real na redução da criminalidade.

Indicadores de Violência e Alocação Revelam Disparidades

Para mensurar a situação, os consultores desenvolveram dois indicadores cruciais. O primeiro é o Índice de Violência Municipal (IVM), que calcula a taxa de criminalidade por 100 mil habitantes, considerando mortes violentas intencionais, violência grave não letal e mortes de causa determinável. O segundo é o Índice de Adequação da Alocação (IAA), que avalia se a participação de um município no recebimento de emendas de seu estado é proporcional à sua contribuição para os índices de violência estaduis.

Aumento nas Emendas, Mas Não no Direcionamento Correto

A pesquisa também aponta um crescimento expressivo no volume de emendas parlamentares para segurança pública. Entre 2022 e 2024, houve um aumento de 96%, passando de R$ 346 milhões para R$ 672 milhões. Contudo, esse aumento não se traduziu em um melhor direcionamento dos recursos. Giordano Bruno, um dos consultores envolvidos no estudo, destacou em entrevista à TV Câmara que o Poder Executivo poderia desempenhar um papel mais ativo na indicação das áreas prioritárias.

Bruno explicou que, embora os parlamentares conheçam as demandas locais, a ausência de uma política setorial clara, com indicações de prioridade, dificulta a alocação mais eficiente. Essa falta de direcionamento pode levar à concentração de verbas em locais específicos, como observado em 2025, quando São Caetano do Sul (SP) recebeu R$ 226,4 milhões, correspondendo a 37,3% de toda a verba nacional de emendas para segurança pública.

Estados e Municípios com Menor Adequação na Alocação

O estudo identificou que Rio Grande do Norte e Mato Grosso apresentaram os menores índices de adequação na alocação dos recursos de segurança pública. Os dez maiores beneficiários das emendas em cada ano analisado concentraram entre 65% e 87% do total de recursos. A análise dos motivos para a concentração em municípios específicos, como São Caetano do Sul, ainda é um desafio, pois o termo “segurança pública” engloba desde a compra de viaturas até reformas de prédios e aquisição de armamentos, dificultando a visualização clara do objeto final dos investimentos.

Execução de Emendas e Ano Eleitoral

Em outra nota técnica relacionada, a Consultoria de Orçamento da Câmara analisou o cumprimento da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, que previa o pagamento de no mínimo 65% das emendas parlamentares no primeiro semestre. O Executivo cumpriu a determinação, com 64,9% das emendas pagas, abrangendo emendas individuais e de bancada para saúde e assistência social, totalizando R$ 29 bilhões.

A justificativa para essa flexibilização foi o ano eleitoral, quando restrições são impostas à execução de obras e investimentos para evitar influências indevidas. No entanto, a nota técnica ressalta que a execução das emendas ficou significativamente acima das demais despesas discricionárias do Executivo, o que seria incompatível com regras da Lei Complementar 210/24 e decisões do STF que exigem simetria na execução. No primeiro semestre, as emendas tiveram execução financeira de 47,8%, enquanto outras despesas não obrigatórias do Executivo ficaram em 29%.