
Especialistas apontam que o processo de desertificação no semiárido brasileiro pode ser revertido com o uso de tecnologias e manejo sustentável.
Um importante seminário realizado na Câmara dos Deputados reuniu representantes do poder público, pesquisadores e especialistas para discutir o combate à desertificação no semiárido brasileiro. O evento, organizado em parceria com órgãos do governo federal e frentes parlamentares, trouxe um alento ao apresentar a perspectiva de que a desertificação é um processo reversível.
Durante os debates, foram apresentados projetos e tecnologias inovadoras que já estão em andamento e demonstram resultados positivos na recuperação de terras degradadas e na melhoria da qualidade de vida das populações locais. A discussão enfatizou a necessidade de investimentos contínuos e a articulação entre diferentes setores para o sucesso dessas iniciativas.
As informações e dados sobre o avanço do problema e as soluções apresentadas foram divulgados com base em declarações de representantes do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), entre outros, conforme informação divulgada pela Agência Câmara Notícias.
Tecnologias para a Convivência com a Seca
O diretor do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), José Etham Barbosa, explicou que a instituição atua há 22 anos com os moradores da região, desenvolvendo e aplicando tecnologias voltadas para a produção de alimentos e a convivência com a seca. Ele ressaltou que a desertificação não é um destino imutável, mas um processo sério que afeta a vida e a segurança alimentar de milhões de pessoas.
Barbosa alertou que a área de risco de desertificação expandiu significativamente entre 2000 e 2020, atingindo mais de 170 mil km² e afetando cerca de 39 milhões de pessoas. Apesar dos avanços no abastecimento de água, ele destacou a carência em saneamento básico como um gargalo importante a ser superado.
Uma das soluções apresentadas é o sistema Sara, de saneamento e tratamento de água, inaugurado em 2017. Este sistema tem como diferencial transformar um problema ambiental em ativo produtivo, tratando esgoto doméstico, reduzindo a contaminação, reaproveitando água e nutrientes, e fortalecendo a produção agrícola familiar. O Insa, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, também testa o sistema Siriema, em parceria com a Embrapa e governos estaduais.
Projetos de Recuperação de Terras e Manejo Sustentável
Abdelfetah Siffedine, representante do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) no Brasil, mencionou diversos projetos em andamento no Nordeste, incluindo colaborações com universidades federais e a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). No Ceará, as ações focam em duas frentes: gestão da água e recuperação de terras degradadas.
Modelos de recuperação de terras demonstraram um crescimento expressivo na biomassa, o que, por sua vez, impulsiona economias locais, como a produção de mel. Esses agricultores se tornam multiplicadores, formando outros produtores e disseminando práticas sustentáveis. A hidrologia espacial, que utiliza satélites para monitorar o ciclo da água, também é uma ferramenta importante na região.
O uso coletivo da terra, conhecido como “fundo de pasto”, e o manejo sustentável da Caatinga, através da criação de animais soltos e do extrativismo, são práticas que garantem acesso a alimentos e geração de renda, ao mesmo tempo que promovem a preservação do bioma. Gustavo Kauark Chianca, representante da FAO no Brasil, destacou a importância do fundo de pasto como uma tecnologia reconhecida que assegura segurança alimentar e combate à desertificação.
Recursos e Cooperação Internacional
O deputado Inácio Arruda (PCdoB-CE) enfatizou que o combate à desertificação no Brasil depende de recursos orçamentários. Ele apontou que os governos estaduais e as unidades da Embrapa, como a Embrapa Caprinos e Ovinos em Sobral (CE) e a Embrapa Semiárido em Petrolina (PE), desempenham papéis cruciais no desenvolvimento sustentável da região.
Arruda ressaltou que a definição e alocação de recursos para a execução de políticas de combate à desertificação são decisões tomadas no âmbito do Orçamento, indicando a necessidade de priorização política. O Brasil se prepara para participar da COP 17, a Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), na Mongólia, onde serão discutidas metas globais de restauração de terras e combate à seca.