
Autismo na Vida Adulta: Famílias e Especialistas Exigem Política de Cuidado Contínuo e Moradias Apropriadas
Pais e especialistas reuniram-se em seminário na Câmara dos Deputados para clamar por políticas públicas que garantam o suporte a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ao longo de toda a vida. A principal reivindicação é a continuidade do atendimento para além da adolescência, fase em que, segundo relatos, o suporte estatal frequentemente cessa, deixando famílias desamparadas.
A demanda por uma política de cuidado para jovens e adultos com autismo se intensificou, destacando a necessidade de serviços que acompanhem o desenvolvimento e as particularidades dessas pessoas. A preocupação reside na transição da adolescência para a vida adulta, um período crucial que exige planejamento e suporte adequados para promover a autonomia.
O evento, promovido pela Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, evidenciou a angústia de pais que veem seus filhos, mesmo ao atingirem a maioridade, necessitarem de acompanhamento contínuo. A falta de estrutura e de programas específicos para essa faixa etária representa um obstáculo significativo para a inclusão e o bem-estar. Conforme informações divulgadas, a necessidade de um plano de vida para autistas é urgente.
A Lacuna no Suporte Pós-Adolescência
Dulcelene Cidreira, mãe de um adolescente autista com alta necessidade de apoio, compartilhou sua experiência alarmante. Ela explicou que, aos 14 anos, seu filho é visto pela sociedade como um adulto, mas ainda possui uma mentalidade infantil. As crises, que na infância poderiam ser vistas como birras, tornam-se, na adolescência, motivo de receio e de interpretações equivocadas por parte da sociedade.
“O meu filho tem 14 anos. Diante da sociedade, ele é um homem, mas é um homem com uma mentalidade de criança. Hoje a sociedade não vê mais as crises dele como birra, mas sim como uma ameaça”, desabafou Dulcelene. Ela enfatizou a urgência de políticas para adolescentes autistas e de Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS) com terapias e acolhimento que não terminem aos 12 anos, como ocorre em muitos locais, dando a falsa impressão de cura.
Rede Brasileira de Inclusão: Um Respiro para a Vida Adulta
Flávia Poppe, criadora da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, explicou que a instituição surgiu justamente para preencher essa lacuna de suporte do Estado para adultos autistas. A rede busca oferecer um caminho para aqueles cujas oportunidades parecem se fechar ao final da fase escolar.
“O instituto nasceu da angústia de, quando termina a fase escolar, nós não vermos nada. No momento em que, na vida de um jovem, o horizonte se expande e a gente pensa no futuro e faz projetos de vida, para um jovem autista a porta se fecha”, relatou Flávia. Ela defende a revisão das políticas públicas para garantir a continuidade do suporte e promover a independência, rompendo o ciclo de dependência.
Moradias Adequadas e o Desafio da Autonomia
A falta de moradias adequadas é apontada por Flávia Poppe como um dos principais entraves para a autonomia de pessoas neurodivergentes. Ela mencionou que o Sistema Único de Assistência Social (Suas) conta com 275 residências, cada uma para dez pessoas, totalizando 2.750 vagas. No entanto, o Censo de 2022 do IBGE indicou 2,8 milhões de pessoas com transtornos mentais no país, evidenciando a insuficiência.
Grupo de Trabalho e Diagnóstico Precoce
O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), presidente da comissão organizadora do debate, anunciou a intenção de propor ao governo a criação de um grupo de trabalho para estudar e formular políticas públicas voltadas a adolescentes e jovens com autismo. Ele se comprometeu a acompanhar a implementação de políticas para pessoas com deficiência.
Flávia Poppe também ressaltou as dificuldades que começam antes da adolescência, especialmente no que tange ao diagnóstico de autismo. A avaliação biopsicossocial, prevista em lei, ainda é uma “enorme dívida” do governo, impedindo o acesso a atendimentos essenciais. A advogada Juliana Rodrigues criticou a exigência da Justiça do Distrito Federal por laudos apenas do sistema público, cujas filas para neuropediatras podem ultrapassar dois anos.