
Ativistas denunciam deportações em massa nos EUA e pedem mais acolhimento a migrantes no Brasil
A brutalidade das deportações em massa promovidas pelos Estados Unidos e as deficiências no acolhimento de migrantes no Brasil foram temas centrais em um debate acalorado na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Ativistas e representantes de movimentos sociais expuseram a dura realidade enfrentada por estrangeiros, em especial brasileiros, em solo americano.
A audiência pública, realizada nesta quarta-feira (8), foi impulsionada por uma mobilização internacional ocorrida em março, a Jornada Continental pelo Direito à Migração e Defesa da Soberania. O evento buscou dar voz às vítimas de políticas migratórias restritivas e pressionar por ações mais efetivas de inclusão no Brasil.
Conforme informações divulgadas pelos participantes, a ação truculenta do ICE (Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos Estados Unidos) tem sido um dos principais focos de preocupação. A situação no país norte-americano é descrita como um cenário de medo e opressão, com milhares de brasileiros sendo detidos e deportados, muitos sem antecedentes criminais.
Deportações em massa nos EUA: um cenário de opressão
Bárbara Corrales, integrante do comitê da jornada em São Paulo, ressaltou a intensidade das ações do ICE. Ela relatou que, em apenas uma semana recente, os agentes prenderam 10 mil pessoas em cinco dias. “Isso não deixa dúvida do que o imperialismo quer: a guerra pode ser com bombas, mas a guerra também pode ser com opressão social”, afirmou Corrales, criticando a política do governo Donald Trump, que, segundo ela, mesmo diante de manifestações populares, ampliou o orçamento do ICE em 70 bilhões de dólares.
De janeiro de 2025 até junho deste ano, o número de deportados alcançou cerca de 600 mil pessoas, sendo 4,6 mil brasileiros. Além disso, 60 mil estrangeiros de diversas nacionalidades foram detidos, com a maioria, 70%, sem histórico criminal. A situação é descrita como uma “catástrofe” por Heloísa Galvão, do Grupo Mulher Brasileira em Boston, que atua diretamente no apoio a migrantes brasileiros nos EUA.
“A situação aqui é uma catástrofe. É um governo que coloca em risco a vida das pessoas, coloca uns contra os outros e alimenta o ódio. O que a gente vê na nossa comunidade é um medo, é um pavor. Todos os dias a gente recebe ligação de brasileiros presos”, desabafou Galvão. Estima-se que 17 mil brasileiros enfrentem detenções prolongadas e dificuldades de defesa nos Estados Unidos.
Brasil busca ser voz dissonante em meio a políticas anti-imigração
Em contrapartida, Carlota Ramos, da Divisão de Assuntos Humanitários do Ministério de Relações Exteriores, apresentou a abordagem brasileira, pautada nos princípios de não criminalização da migração, proteção de direitos e integração socioeconômica. Ela reconheceu o cenário global de endurecimento de políticas migratórias e o recrudescimento de discursos anti-imigração.
“Vivemos [no mundo] um momento de recrudescimento de discursos anti-imigração, endurecimento de políticas migratórias e crescente erosão de mecanismos internacionais de proteção. Nesse contexto, o Brasil tem atuado para ser uma voz dissonante, que defende soluções baseadas em direitos humanos, cooperação internacional e não discriminação”, declarou Ramos.
A diplomata citou ações como a Operação Acolhida, voltada para venezuelanos, e o primeiro Plano Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (I PlaNaMigra), assinado em junho deste ano, como exemplos do compromisso brasileiro com o acolhimento.
Fortalecimento de programas e desafios internos para migrantes
O deputado Rui Falcão (PT-SP) defendeu o fortalecimento do Programa Aqui é Brasil, que visa a reintegração de brasileiros repatriados. Ele apontou o baixo orçamento como um obstáculo para a reinserção de mais de 5 mil famílias que foram deportadas com violência. “Nós não queremos muros, queremos horizontes”, enfatizou Falcão, defendendo acesso à moradia, benefícios sociais e oportunidades no mercado de trabalho.
Durante a audiência, migrantes radicados no Brasil também compartilharam suas experiências, relatando desafios como racismo, xenofobia, trabalho precário, separação familiar e o medo constante de deportação e violência institucional. Constance Salawe, do Conselho Municipal do Migrante de São Paulo, nigeriana, destacou que, apesar da legislação migratória brasileira ser avançada, sua plena implementação ainda é um desafio.
“Nós, imigrantes, não somos um problema a ser resolvido. Somos parte da solução: trabalhamos, empreendemos, produzimos conhecimento, cuidamos das pessoas, enriquecemos a cultura brasileira e ajudamos a construir um Brasil mais diverso, mais forte e mais humano”, declarou Salawe, ressaltando que “migrar não é apenas mudar de território, é reconstruir uma vida”.
O deputado Reimont (PT-RJ) e a deputada Erika Kokay (PT-DF) também participaram do debate, com Kokay sugerindo a criação de um observatório para monitorar a situação dos migrantes e uma moção de repúdio à política anti-imigratória de Trump. Muna Muhammad Obdeh, professora palestina da UnB, reforçou a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos para a reconstrução de vidas no Brasil, enfatizando a dignidade humana como pilar fundamental.