Skip to content

Apoio Psicológico para Vítimas de Desastres Climáticos: Vítimas e Especialistas Defendem Política Nacional de Saúde Mental Climática no Brasil

maio 27, 2026

Saúde mental em foco após tragédias climáticas: especialistas e vítimas clamam por atenção psicológica.

Enchentes devastadoras e outros desastres climáticos têm deixado um rastro de destruição e sofrimento em todo o Brasil. Além dos danos materiais e ambientais, as vítimas enfrentam profundos traumas psicológicos, que muitas vezes são negligenciados. Diante desse cenário, especialistas e pessoas que vivenciaram essas tragédias defendem a criação de uma política pública permanente para o acolhimento e tratamento de saúde mental.

A proposta em análise na Câmara dos Deputados visa estabelecer a Política Nacional de Saúde Mental Climática, um marco para garantir que o Sistema Único de Saúde (SUS) esteja preparado para oferecer suporte psicossocial em situações de emergência. A iniciativa busca prevenir e tratar ansiedade, estresse pós-traumático e outros impactos emocionais decorrentes de eventos climáticos extremos, como as recentes enchentes no Rio Grande do Sul.

Conforme dados apresentados em audiência pública, nove em cada dez municípios brasileiros registraram desastres climáticos entre 1991 e 2023, evidenciando a urgência de medidas estruturais. A iniciativa conta com o apoio de vítimas que relatam o difícil processo de recuperação, não apenas material, mas também emocional, após perderem tudo em tragédias climáticas. A informação foi divulgada pela Câmara dos Deputados.

Vítimas relatam o impacto devastador das enchentes na saúde mental

A agricultora Elida Dias, que perdeu todos os seus animais e precisou se deslocar de sua cidade após as enchentes no Rio Grande do Sul, descreveu a profunda dor e o isolamento social vivenciados pelas vítimas. “As pessoas caminham de cabeça baixa, todo mundo se isolou. Eu comparo as pessoas a vasos. Tem vaso quebrado, vaso trincado e vaso faltando pedaço. Esses vasos precisam ser reconstruídos”, relatou, emocionada.

O sentimento de desamparo é compartilhado por muitos. A falta de um suporte psicológico imediato e contínuo agrava o sofrimento. A reconstrução, para Elida e tantos outros, vai muito além de erguer casas e pontes, envolve a restauração da esperança e da saúde mental.

Projeto de Lei prevê atendimento psicossocial permanente em desastres climáticos

O deputado Gilson Daniel, relator do Projeto de Lei 6151/25, enfatizou que a proposta visa criar uma política pública permanente para o atendimento psicossocial em situações de desastres climáticos. “Reconstrução não significa apenas recuperar pontes, estradas e moradias. Também significa restaurar vínculos humanos, oferecer acolhimento psicológico e fortalecer as comunidades”, afirmou.

O projeto detalha ações para enfrentar a crise psicossocial, o estresse pós-traumático e o trauma comunitário. A proposta inclui acompanhamento contínuo e acolhimento para vítimas, familiares e equipes de resgate, envolvendo os setores de saúde, educação e defesa civil. A criação de centros comunitários dedicados à recuperação emocional das comunidades afetadas também está prevista.

Especialistas alertam para sequelas psicológicas em crianças e adultos

Reinaldo Nascimento, pedagogo de emergência e terapeuta social, destacou as consequências emocionais observadas em crianças após tragédias climáticas, como o retorno de hábitos como urinar na cama e chupar o dedo. Ele ressaltou a importância de compreender que essas reações são comuns e que o pânico pode agravar o quadro.

Débora Noal, da Força Nacional do SUS, apontou que a retomada da produção e dos meios de subsistência pode ser um fator importante para a saúde mental das famílias atingidas. No entanto, ela alertou para o perigo de um tratamento inadequado, citando um episódio em 2011 onde o uso indiscriminado de sedativos por parte de uma indústria farmacêutica resultou em tragédias durante novos deslizamentos.

Recuperação financeira e psicológica: um caminho para a reconstrução

O agricultor Hélio Dias, também afetado pelas enchentes em Eldorado do Sul, sublinhou a importância da recuperação financeira para a reconstrução da vida das famílias. “Meu maquinário ficou cerca de 15 dias embaixo d’água. Como produzir desse jeito? Ainda temos dívidas para pagar. Precisamos criar um fundo rotativo para financiar esse trabalho”, desabafou.

A união de esforços entre políticas públicas de saúde mental e programas de recuperação econômica é vista como fundamental para que as comunidades afetadas por desastres climáticos possam, de fato, se reerguer e superar os traumas vivenciados. A proposta em tramitação busca justamente integrar essas necessidades, oferecendo um suporte mais completo e humano às vítimas.