
Apostas Online em Xeque: A Avalanche de Publicidade Preocupa Especialistas e Deputados
A explosão da publicidade de apostas esportivas e jogos de cassino online no Brasil tem gerado forte preocupação. Em debate na Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados, pesquisadores, profissionais de saúde e especialistas em ludopatia alertaram para os perigos da exposição massiva a esses anúncios.
A normalização do jogo e o aumento de casos de endividamento e transtornos mentais são as principais bandeiras levantadas. A comparação com a antiga indústria do tabaco, que antes dominava a publicidade, foi feita para ilustrar a gravidade da situação atual das ‘bets’.
Conforme informações divulgadas, a publicidade constante, especialmente em transmissões esportivas e redes sociais, estaria reduzindo a percepção de risco da população. Especialistas destacam que a questão vai além da arrecadação de impostos, impactando diretamente a saúde pública e o bem-estar das famílias brasileiras.
O Impacto da ‘Normalização’ das Apostas
O psiquiatra Leonardo Carriço, especialista em dependência comportamental e ludopatia, comparou a atual fase das apostas online ao período em que anúncios de cigarros eram permitidos livremente. Segundo ele, a presença constante das ‘bets’ em diversos meios de comunicação cria uma falsa impressão de que a atividade é totalmente normal e isenta de riscos.
Carriço apresentou dados alarmantes: cerca de **1,4 milhão de brasileiros já possuem diagnóstico de transtorno do jogo**, e aproximadamente **11 milhões apresentam comportamento de risco**. Essa normalização pode levar mais pessoas a desenvolverem dependência, com consequências devastadoras.
Saúde Pública e Famílias em Risco
A pesquisadora Kelly Noronha ressaltou a necessidade de se olhar para além da arrecadação fiscal, considerando os impactos na saúde pública e nas famílias. Ela questionou se o lucro gerado pelas apostas compensa os custos sociais e de saúde que recaem sobre o país.
Os prejuízos, segundo Noronha, já são visíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e na assistência social, além do **crescente endividamento das famílias**. A publicidade massiva, em sua visão, agrava esses problemas.
Propostas para uma Publicidade Mais Consciente
Letícia Ferraz, diretora-executiva do LabSul, defendeu que a restrição da publicidade é um passo importante, mas não a solução completa. Ela sugeriu que os anúncios priorizem a informação e a conscientização sobre os riscos associados às apostas online.
“Retirar a publicidade não resolve, é preciso torná-la mais informativa e educativa”, enfatizou Ferraz. A ideia é que as campanhas sirvam para alertar, e não apenas para atrair novos apostadores, mudando o foco do estímulo para a prevenção.
Regulamentação e Desafios Atuais
O secretário-adjunto de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, Fabio Macorin, reconheceu que o controle da publicidade é um dos maiores desafios. Ele informou que as normas atuais já proíbem anúncios que pressionem o consumidor a apostar imediatamente ou que apresentem o jogo como solução para problemas financeiros.
Macorin citou exemplos de proibições, como mensagens do tipo ‘aposte agora’ ou sugestões de que o jogo pode resolver problemas financeiros, trazer enriquecimento ou quitar dívidas. A regulamentação também exige mecanismos para impedir o acesso de menores de 18 anos e de pessoas que optaram pela autoexclusão.
Transtorno do Jogo como Problema de Saúde Pública
Gabriella Boska, representante do Ministério da Saúde, destacou que o transtorno do jogo é um grave problema de saúde pública. Ela apontou que **75% dos pacientes apresentam outros transtornos psiquiátricos associados**, e o risco de suicídio aumenta significativamente entre apostadores com alto endividamento.
“A gente, às vezes, tende a transferir essa responsabilidade para o indivíduo. ‘Jogue com responsabilidade’, ‘ative os alertas’, mas quando a pessoa está em um processo de sofrimento psíquico, ela não consegue sozinha”, alertou Boska, reforçando a necessidade de ações públicas mais robustas.
O Risco do Mercado Ilegal
Em contrapartida às propostas de restrição, Carlos Lima, presidente do Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IJBR), argumentou que uma proibição ampla da publicidade poderia fortalecer o mercado clandestino. Segundo ele, esse mercado já representa cerca de metade das apostas realizadas no país.
“Qualquer restrição à publicidade só vai ser aplicada ao setor legalizado, o que vai fazer com que a gente empurre a população para o mercado ilegal”, afirmou Lima, defendendo que a regulamentação e a educação são caminhos mais eficazes do que a proibição total da publicidade.