
Seminário na Câmara dos Deputados destaca a relevância atemporal do legado de Milton Santos para o Brasil contemporâneo.
A Câmara dos Deputados foi palco de um importante seminário que celebrou os 100 anos de nascimento de Milton Santos, um dos mais influentes geógrafos e pensadores brasileiros. O evento ressaltou a impressionante atualidade de suas análises sobre o Brasil e o mundo, demonstrando que suas reflexões continuam essenciais para a compreensão dos dilemas atuais.
Participantes, incluindo a neta do geógrafo, Nina dos Santos, e o deputado Orlando Silva, enfatizaram como os conceitos abordados por Santos, como representatividade e os impactos da globalização, permanecem centrais nos debates políticos e sociais do país.
A discussão girou em torno da necessidade de aplicar o pensamento crítico e propositivo de Santos para encontrar soluções para os desafios do século XXI, conforme divulgado pela Agência Câmara Notícias.
A Obra de Milton Santos: Um Farol para a Representatividade e a Soberania
Nina dos Santos, secretária-adjunta de Políticas Digitais da Presidência da República, destacou a **importância fundamental da obra de seu avô** para debater temas cruciais como representatividade, soberania e conexão social em uma sociedade em constante transformação. Ela ressaltou que Milton Santos não se contentava com a mera crítica, mas buscava ativamente propor alternativas e soluções.
“Ele se dava ao trabalho de pensar alternativas. A gente precisa avançar para a proposição de transformações, de alternativas”, afirmou Nina, enfatizando a necessidade de seguir o exemplo do geógrafo na busca por um futuro mais justo.
O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), vice-coordenador da Bancada Negra da Câmara, lembrou que a **representatividade foi um dos temas centrais** em um debate com Milton Santos na própria Câmara em 2000. Para o parlamentar, isso evidencia a persistente atualidade de suas ideias, uma vez que os desafios para garantir representatividade seguem vivos na política brasileira.
“A representatividade do povo negro brasileiro segue sendo um desafio na política e no parlamento nacional, assim como a representatividade das mulheres brasileiras segue sendo um desafio no parlamento do nosso país”, pontuou Silva, sublinhando a **urgência em fortalecer os vínculos entre a população e as instituições políticas**.
Globalização e o Fortalecimento das Corporações: A Visão Antecipatória de Milton Santos
Maurício Costa de Carvalho, professor do Instituto Federal de São Paulo, trouxe à tona a análise de Milton Santos sobre a globalização, já em 1997. Segundo o professor, Santos denunciava o **fim da representatividade real nos parlamentos**, com a ascensão da fase financeira do capitalismo, onde o Estado cederia espaço de governança às grandes empresas.
Carvalho explicou que, nessa perspectiva, os parlamentos poderiam se tornar palco para bancadas de corporações, em detrimento dos interesses dos grupos sociais. Ele citou Santos ao afirmar que “o chamado poder público passa a ser subordinado, arrastado pelas grandes empresas”, enfraquecendo o Estado e promovendo a **fragmentação territorial e o abandono da solidariedade**.
Essa dinâmica, alertava Santos, criava as condições para uma **substituição da democracia de verdade por uma democracia do mercado**, onde os valores corporativos prevaleceriam sobre as necessidades sociais.
Esperança nas Periferias e a Crítica às Elites: Transformação Social Segundo Milton Santos
Apesar do cenário crítico, Maurício Carvalho ressaltou que Milton Santos também vislumbrava **potenciais de transformação positiva com a globalização e o avanço tecnológico**. O geógrafo acreditava que a política, de fato, poderia ser exercida por grupos periféricos, como pobres, ribeirinhos, indígenas e quilombolas.
Essa visão se baseava na premissa de que as elites estariam, em grande parte, a serviço dos interesses empresariais, e as classes médias seriam capturadas pela busca de privilégios em vez da consolidação de direitos. Assim, a **luta por um país mais justo e igualitário** encontraria sua força nos setores historicamente marginalizados.
O seminário, organizado em parceria com o Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Câmara (Cedes), buscou “contribuir para que o legado de Milton Santos continue vivo, inspirando novas gerações na construção de um pensamento social brasileiro crítico, criativo e comprometido com a transformação social”, conforme destacado pelos organizadores.