
Mulheres em Ciclo de Violência: A Relação Intrínseca entre Dependência Econômica e Vulnerabilidade
A dependência econômica é um fator crucial que perpetua a violência contra a mulher. Essa dependência, muitas vezes invisível, aprisiona mulheres em relacionamentos abusivos e limita severamente suas chances de buscar ajuda ou romper o ciclo de agressões. A discussão sobre como quebrar essa barreira foi o foco de um importante debate no Congresso Nacional.
Especialistas reunidas na Comissão Mista de Combate à Violência Contra a Mulher apresentaram propostas e análises sobre como a fragilidade financeira das mulheres está diretamente ligada à sua vulnerabilidade. A busca por políticas públicas eficazes e integradas foi apontada como o caminho essencial para reverter esse cenário preocupante.
A audiência pública, conduzida pela deputada Luizianne Lins, buscou aprofundar o entendimento sobre a chamada violência econômica e suas devastadoras consequências. A partir das discussões, ficou claro que a autonomia financeira é um pilar fundamental para a segurança e o bem-estar das mulheres.
Entendendo a Violência Econômica e seus Impactos
Kenia de Souza, professora-adjunta de Economia da Universidade Federal do Paraná, definiu a violência econômica como uma forma de controle que restringe o acesso a recursos, impede a geração de renda, apropria-se de bens e força o endividamento. Essa prática, segundo ela, não apenas afeta a saúde mental das mulheres, aumentando o risco de doenças, mas também impacta diretamente seus salários e oportunidades no mercado de trabalho.
“A expectativa de renda acaba sendo menor que o potencial dessas mulheres, pois elas estão em um ciclo de violência”, explicou Kenia de Souza, ressaltando como a situação de dependência limita o pleno desenvolvimento profissional e pessoal.
Autonomia Financeira como Escudo Contra a Violência
A secretária nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados do Ministério das Mulheres, Joana Célia dos Passos, reforçou a ligação direta entre a autonomia financeira e a capacidade de uma mulher enfrentar a violência. Ela destacou que a menor inserção no mercado de trabalho e o desemprego elevam a dificuldade de sair de situações de abuso.
“A desigualdade econômica sustenta a violência”, afirmou Joana Célia, criticando também ações judiciais que, segundo ela, dificultam o avanço da Lei da Igualdade Salarial. Para a secretária, combater a violência contra a mulher exige uma união de esforços entre os Três Poderes e a sociedade civil, com foco na promoção da igualdade de oportunidades.
A Dupla Jornada e a Distribuição de Cuidado
Lais Wendel Abramo, secretária nacional da Política de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento, destacou que a desigualdade financeira começa antes mesmo do mercado de trabalho. Ela apontou que os homens, em geral, possuem maior autonomia financeira devido a uma inserção mais estável no mercado e menor carga de trabalho não remunerado, como os cuidados com a casa e a família.
A aprovação da Política Nacional de Cuidados foi vista como um passo importante para reconhecer a sobrecarga de trabalho que recai sobre as mulheres. “A desigualdade na autonomia financeira das mulheres não nasce apenas no mercado de trabalho. Ela começa antes, na distribuição do tempo e das responsabilidades de cuidado”, salientou Lais Wendel.
Fortalecendo o Protagonismo Feminino e a Autonomia Real
Iniciativas para fortalecer o protagonismo feminino foram apresentadas por Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES. Paralelamente, Hildete Pereira de Melo, economista da UFF, criticou a persistência de posições conservadoras na política e a baixa representação feminina no Parlamento, fatores que dificultam avanços.
Carolina Campos Afonso, doutoranda da UnB, enfatizou a necessidade de garantir condições reais de autonomia para que as mulheres possam efetivamente sair do ciclo de violência. A dependência econômica, quando superada por meio de políticas de apoio e empoderamento, torna-se um poderoso instrumento de libertação e igualdade.