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Formação de Motoristas: Especialistas Exigem Foco em Comportamento e Risco para Reduzir Mortes no Trânsito Brasileiro

março 26, 2026

Especialistas defendem formação de motoristas com foco em comportamento e risco para reduzir mortes no trânsito

A forma de ensinar novos motoristas no Brasil está sob escrutínio. Especialistas em segurança viária defendem uma mudança radical no processo de formação, priorizando o comportamento humano e a percepção de riscos em detrimento da mera memorização de regras e técnicas de direção. A discussão ganhou força em um debate na Câmara dos Deputados, focado em alterações no Código de Trânsito Brasileiro.

O objetivo é alinhar o Brasil às metas internacionais de segurança no trânsito, buscando reduzir significativamente o número de mortes e lesões. A proposta central é incorporar desde o início do aprendizado conceitos que vão além da condução mecânica do veículo, incentivando a tomada de decisões mais seguras e conscientes.

A busca por um modelo de aprendizado mais eficaz visa atender às metas de segurança da ONU. O debate buscou entender como o conceito de “Visão Zero”, que prega a inaceitabilidade de qualquer morte ou lesão grave no trânsito, pode ser aplicado desde o primeiro dia de aula para candidatos à CNH. Conforme informação divulgada pela Agência Câmara Notícias, a discussão abordou a eficácia do atual processo de formação brasileiro e como ele se alinha a esses objetivos globais.

A prioridade é o comportamento humano, não apenas as regras

Paulo Guimarães, do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), destacou que o modelo atual é falho por focar excessivamente em habilidades mecânicas, negligenciando a capacidade do motorista de identificar perigos e tomar decisões prudentes. Ele ressaltou que o comportamento dos motoristas é a principal causa das mais de 37 mil mortes anuais no trânsito brasileiro. “Mais do que decorar placas, as crianças devem aprender conceitos de cidadania, responsabilidade e respeito ao próximo”, sugeriu Guimarães sobre a implementação do “Visão Zero” desde a escola.

“Nossa sociedade banaliza a vida”, alerta especialista

O professor Paulo César da Silva, da Universidade de Brasília (UnB), corroborou a ideia, afirmando que o comportamento dos condutores responde por cerca de 90% das ocorrências de trânsito. Ele defende um sistema viário encarado como um ambiente social e maior rigor na habilitação. “A banalização da vida não se dá só no trânsito. Nossa sociedade banaliza a vida, a cidadania e o respeito ao outro”, alertou. Silva também enfatizou a importância de considerar a reação do condutor ao ambiente, integrando o aspecto comportamental ao ambiental na formação.

Propostas para incluir a formação no currículo escolar

Francisco Garonce, vice-presidente do Instituto Nacional de Projetos para Trânsito e Segurança (Inprotran), sugeriu a inclusão da formação para o trânsito no ensino médio. A proposta visa tratar o tema como conhecimento técnico e prático, distinto da educação para o trânsito no ensino fundamental. “As regras de trânsito não são naturais do ser humano; elas precisam ser ensinadas para que o jovem desenvolva habilidades reais de percepção de riscos“, explicou. Garonce criticou a visão das autoescolas como meros “pedágios” para a obtenção da CNH.

Críticas à flexibilização e defesa de um trânsito mais seguro

Yomara Ribeiro, presidente da Associação de Trânsito de Santa Catarina (Atraesc), manifestou-se contra a recente flexibilização no processo de obtenção da CNH, classificando-a como “discurso populista e eleitoreiro”. Ela argumentou que, sem o controle das autoescolas e instrutores credenciados, o aluno assume o risco sozinho. “Qual é o tipo de trânsito que nós queremos: um trânsito mais barato ou mais seguro?”, questionou. Em 2026, novas regras do Contran visam reduzir custos e digitalizar o processo, com o fim da obrigatoriedade de autoescolas e a oferta de cursos teóricos digitais, mudanças que geram debate sobre a priorização da segurança.

Ygor Valença, presidente da Federação Nacional das Autoescolas, propôs um Plano Nacional de Formação de Condutores para padronizar o ensino e evitar decisões baseadas em interesses políticos. Ele defende que o aluno comprove o domínio de manobras essenciais, em vez de apenas cumprir carga horária. “Carga horária, com 20, 40 horas, é ruim para o cidadão, ninguém quer. Agora, se eu coloco um checklist para que ele comprove o que ele faz, eu estou preparando uma pessoa para ser motorista”, concluiu.